O ‘causo’ de uma formanda que queria chegar inteira na festa[1]
[1] Baseado em fatos reais (sempre quis escrever isso!).
Faz sentido, e acredito que o
leitor há de convir que, as cidades do interior, com aquele “jeitão” ou
“jeitinho” que as fazem tão características, pouco a pouco, vêm se tornando
lenda.
Porém, tenha fé no ser humano ou
não, tem horas que ficamos perplexos, realmente abismados frente a algumas situações, como uma que tive o prazer de viver no último sábado, 25 de janeiro.
Acontece que eu nasci na grande
São Paulo, fui criada numa destas cidades representantes do que chamamos de
interior paulista e, depois que terminei o ensino médio passei a ir e voltar
diariamente para a famosa Piracicaba – que, até então, eu só conhecia pelo
carro da pamonha e, aliás, duvido que as daqui viessem realmente de lá.
Desde o começo me espantei com
Piracicaba. Uma porque achei o sotaque dos piracicabanos bem mais carregado do
que o meu (fiquei igual após quatro anos), ao mesmo tempo em que me parecia uma
espécie de mini-cidade grande, se é que isso existe.
Fato é que lá tive a prova de um
interior ainda existente, pude me alimentar de fé nos seres humanos, saindo do
aquário blindado de que ninguém confia em mais ninguém, já que os tempos
mudaram.
Sábado era a festa de formatura
da minha turma. Aluguei o vestido, toda trabalhada no amarelo, montada no salto
dourado, eu estava me sentindo a mais infeliz das mulheres já que, durante a
viagem, um dos feixes do vestido simplesmente estourou na parte das costas.
O nervoso veio porque estes
ganchinhos eram as únicas certezas de que eu estaria segura, visto que toda a
parte restante das costas era aberta. Eram dois. Assim, após o acidente, eu
tinha 50% a menos de tranquilidade. Sem contar que, quem – pelo amor de Deus –
quer chegar à formatura maltrapilha?
Desgostosa, comecei a murmurar
uns azedumes e meu pai – que jamais, e nunca poderia ser considerado assim –
foi calmo o suficiente para não me xingar. Achamos o local da festa, fomos
atrás de uma farmácia.
E quando a gente precisa...
Lógico que não achamos farmácia
nenhuma, até porque em matéria de Piracicaba nós andamos de olhos fechados em São
Paulo. Ele por ser de lá, eu por ser perdida em qualquer uma das duas.
Foi ai que meu pai avistou um
carrinho de cachorro quente em frente de uma garagem. Tomando conta: duas
senhoras. Era o oásis da em meio a nossa completa falta de opções.
Meu pai – espertamente e rezando
para que desse certo – se aproximou com o carro. Simpático começou a contar o
drama, perguntando onde ele poderia achar uma farmácia – AHAMMMMM, sei!
Ninguém perguntou o nome de
ninguém. Ela não titubeou.
– Espera um pouquinho que eu vou lá
dentro pegar agulha e linha.
Era a prontidão em pessoa, se
preocupando, até mesmo, em pegar a linha amarela, da mesma cor do meu vestido. Acho que ela percebeu a farmácia que queríamos chegar.
Nós suspiramos aliviados. Meu pai
não tinha me dito, mas eu percebi o que ele havia premeditado.
Cinco minutos depois eu estava na
garagem dela com o braço erguido. Uma posição que se pode visualizar com a
definição “cheire minha axila”. Meu pai, por gratidão, deu um embrulho que
tinha no carro a ela. Não era nada demais, assim como o favor simples (e
imenso) que ela tinha nos feito.
Ela ganhou uma frigideira e dois
fãs.
Meu pai feliz por mim e por tê-la conhecido.
Eu ganhei minha noite de volta e
um suspiro para a alma.

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